Dalton Trevisan, o vampiro, estaria com 100 anos. De Curitiba, perscruta suas dores e taras mais íntimas. Crava, delicioso, suas presas no pescoço das polaquinhas sobreviventes de uma era que já foi romântica na maldita Curitiba de agora, na data dos seus 333 anos, e eterna discussão se, por erro histórico-jurídico, a partir da instalação do Pelourinho (1668) ou da reunião dos homens de bem (bens?) no dia 29 de março de 1693, diga lá Prof. Aloísio.[1]
Espiando de sua casa, na esquina da Rua Ubaldino do Amaral, já esbravejava contra a estridência da quebra do silêncio, nesta mesma rua, por entidades religiosas e a surdez divina[2].
Na busca da cidade perdida, amaldiçoava a correria desenfreada em que carros furiosos já cruzam a esquina. Uma e outra velhinha, missal na mão, corre aflita – atropelada que não vai pra o céu[3] e modernidades que amaldiçoa: ai da cólera que espuma os teus urbanistas, apostam na corrida de rato dos malditos carros, suprimindo o sinal e a vez do pedestre, inaugurada a caça feroz aos velhinhos de muleta... se não salta já era, em cada esquina os cacos da bengala de um ceguinho... quem acerta primeiro o paraplégico na cadeira de rodas?...nenhum cão ou gato pelas tuas ruas... todos atropelados...um que se salve aos pulos da perninha dura...[4] Ei,olha o trem![5]
Anteviu, ao descrever e expor “uma vela para Dario”[6], os muitos dramas que vão além de um mal-estar que derruba velhos na rua, que expõe e amaldiçoa a arrogância e a petulância dos que não fazem parte dos fundadores, vencedores, e dominadores da cidade, no silêncio dos castelos do nepotismo, como informa o professor[7], em sua tese de doutorado, aos reclamos do alcaide... como se a política não se tornasse um negócio de família, como se fora só aqui, e não no Oriente e no Ocidente, ou em toda a longa história do mundo.[8]
Aqui, como em outros estados, as famílias dominantes desde as sesmarias, mantêm-se no poder – nepotismo espraiado - haja vista os mesmos sobrenomes, em indústria, comércio, cargos, serviços, política, tribunais, de geração em geração... os anônimos que chegam preferem a situação de vítimas do sistema do que estar fora dele... E não é exclusividade daqui, e não quer dizer que não sejam talentosos e brilhantes os donos do poder, e sua descendência, em seu silêncio de vencedores...
Quando o forasteiro tenta disputar cargo que lhes afronte, ainda que em concurso público, vai precisar de cartas de apresentação, e bênçãos para ultrapassar o estágio probatório, lotação – se passar, vai é lá pras lonjuras das fronteiras do estado -, permanência, promoção...Aliás, casamento também oportuniza poder.
Governadores são filhos de governadores, cunhados de governadores, genros de governadores, por gerações. Em uma mesma época (1979), os chefes, presidentes do poder legislativo e judiciário, e do poder executivo, o governador, nas três esferas de poder, provenientes do mesmo núcleo familiar[9];
...por favor, não me dê a mão, não gosto que me peguem na mão, essa tua palma quente e úmida[10]...
Quer entrar nesta sociedade? Sujeite-se a estudos incessantes, trabalhos madrugada adentro, desilusões, stress ...como fosse a maior normalidade, e, ainda, os que assim conseguem, a Deus, e aos representantes da elite, genuflexos, rendem graças em temor reverencial, quando não em puxa-saquismo, e se tornam eternos devedores de favores. Ou, alternativamente, pertencer a grupos, partidos, seitas, secretas ou explícitas para juntar forças em auxílio mútuo?
A instituição, que deveria defender o neófito, trava-lhe a carreira mediante um procedimento de exclusão, apunhalando-o pelas costas, na defesa hipócrita da instituição milenar impedindo que novos membros nela ingressem, ainda que paradoxal e hipocritamente se arvorarem em defensores classistas. E, querendo que autoridades e juízes ouçam a voz da instituição, nega ela mesmo vistas a seu filiado, e o senhor relator do procedimento sequer o ouve...um concorrente a menos no mercado...
Lá vem o Dario, que cai, e a turba o rodeia, daí a pouco, lá se foram o guarda-chuva, o relógio, e a aliança, à espera do rabecão, ainda a bruxulear a luz da vela. No entanto, o toco de vela apaga-se às primeiras gotas da chuva, que volta a cair[11].
Mas lá vem outro Dario. Descendo a rua Ubaldino do Amaral, logo à frente da casa do Vampiro de Curitiba, outro velhinho vem pela calçada.
Setembro de 2024, sábado à noite, cambaleia, cai, parte do corpo sobre o asfalto. Vinha trôpego, sacolinha de pão francês, mortadela, vina[12], e leite de pacotinho de plástico, tipo “b” e caiu... Você não viu?...nem eu...Ah, Curitiba, ó cidade sem lei, capital mundial dos assassinatos do volante, santuário do predador de duas rodas sobre o passeio na cola do pedestre em extinção[13]...
Alienado, nem soube da notícia. Eu, só de olho no balouçar da saia, a suspirar pelas minhas presas na pele tenra do pescoço...zás...Veja, a boquinha dela está pedindo beijo – beijo de virgem é mordida de bicho cabeludo. Você grita vinte e quatro horas e desmaia feliz...Por que Deus fez da mulher o suspiro do moço e o sumidouro do velho?[14].
Sigo, distraído. O plebeu, quando atendido nas instituições, é no corredor, em meio a fila do elevador, pela estagiária solícita, e o vencedor, nepotismo encastelado, fidalguia ilustre, recebido com cafezinho e broinha de fubá mimoso...Plebeu, que chance sequer de expor a questão?
No hospital das beatas, a fila de reclamações...E as ovelhas é que devem zelar pelo pastor...
Na disputa da vaga de estagiário, nas últimas etapas de testes, superado pela informação do gerente... “a vaga foi ocupada”... por nenhum dos que a disputavam há dias...
Se o velhinho não for esperto, atropelado até pelos transeuntes nas calçadas de petit-pavê da Rua das Flores, pela pressa dos mais jovens... branquinho, transparente, ainda não morreu?... então não atrapalhe...
Puta[15] casum:
O tempo original do vídeo é de 4 minutos e 26 segundos. Na primeira parte, que corresponde a queda do idoso na pista (1:05) até o atropelamento (2:44), a Banda B contou 29 carros, três motos e um ônibus do transporte coletivo de Curitiba passando pela vítima, muitos lentamente, parecendo perceber o homem caído.
Depois do atropelamento (2:44) até a chegada do veículo, que aciona o pisca alerta para sinalizar e ajudar a vítima (3:45), outros 12 carros e duas motos passam na pista em que a vítima está, ou, ao lado, desviam, e seguem sem prestar socorro.[16]
Renovam-se as lamentações... Ai de ti Curitiba...esta que aí está não me representa...nada com a tua Curitiba oficial enjoadinha, narcisista, toda de acrílico para turista ver, da outra que eu sei[17]..
- Ei, por que não falam do único carinha que parou o carro, desceu, sinalizou?...
...baratas leprosas com caspa na sobrancelha...ratos piolhentos de gravatinha-borboleta[18]...
Era eu um dos que passaram? O episódio me identifica[19]. Eu, curitiboca da gema ou adotado há tanto tempo, que já assumi os ares desta arrogância explícita, de tantos grupos étnicos e nacionalidades diversas que se misturaram nas ruas da cidade, mas mantiveram a mesma desconfiança gerada pelas guerras lá de fora. E até a dos maragatos. Proibiram nome estrangeiro de time de futebol...Ainda hoje grupos de times rivais combinam briga pelo whats app?
Ainda bem que fui absolvido. Qual seria a vista do meu ponto, ângulo de visão, reflexos luminosos? Vou eu tirar um embrulho do meio da rua? Como distinguir se havia um corpo na via, objeto ou saco de lixo?
Eu não estava lá, mas agiria igual. É representativo de mim e da minha cidade, que até já posou de República... República de Curitiba...é minha referência, sou eu... e, pior, sem nenhum sentimento de culpa, aliás sem culpa mesmo...desviaria e ia em frente... “todo mundo passou como se ele não fosse nada”[20]...seria o grito que contrasta o silêncio dos perdedores?
...tudo faça para não morrer, em último caso que seja longe de Curitiba... nada de orador à beira do túmulo, já imaginou o presidente da OAB pipilando o verbo...tudo menos missa de sétimo dia cantada em falsete ...[21]
Qual será o seu futuro, seu trânsito, sua cara, sua tara, como serão seus representantes, ah, e seus representados, nobreza hierárquica, como será a sua grita ou o seu silêncio? Cidade fria, gripe e bronquite, cinzenta, alma gelada, distante, outrora com filas nas calçadas das instituições nas lonjuras de contato despersonalizado, hoje ainda mais neutro. Atendimento? Só virtual, eivado de falhas, anônimo, caricato. Atenderam? Retorne ao menu inicial...
...os ipês na Praça Tiradentes sacolejarão os enforcados como roupa secando no arame...no Rio Belém serão tantos afogados que cabeça de um encostará nos pés de outro...O rio Barigui se tingirá de vermelho...um sino baterá no ouvido dos homens e eles esborracharão feito caqui maduro[22]...
...que fim levou o vampiro louco de Curitiba... o que fica das ruínas de uma Curitiba perdida?[23]...
É uma Curitiba perdida que também tento revisitar. Onde a redenção? Algum lugar do passado, com um nó de nostalgia sufocando na garganta, apertando o coração, que também eu, e todos por aqui tentamos revitalizar. De onde a força que não tenho?
Curitiba sem pinheiro ou céu azul, pelo que vosmecê é – província, cárcere, lar - esta Curitiba e não a outra para inglês ver, com amor eu viajo, viajo, viajo[24]...
Curitiba, maldita Curitiba, amo você, sua disgracida!
[1] SURGIK, Aloisio. Em defesa dos 300 anos de Curitiba – parecer histórico-jurídico. Curitiba, 1993.
[2] TREVISAN, Dalton. Lamentações da Rua Ubaldino. In: Em Busca de Curitiba Perdida. Rio de Janeiro: Record, 2022. (Dinorá, 1994)
[3] Ibidem. Dá uivos, ó porta, grita, ó Rio Belém. Ibid. (Crimes de Paixão, 1978)
[4] Id. Curitiba Revisitada. Id. (Dinorá, 1994)
[5] https://jornalcomunicacao.ufpr.br/curitiba-e-a-cidade-com-mais-acidentes-ferroviarios-do-brasil. Acesso 10/3/2026.
[6] Ibidem. Uma vela para Dario. Ibid. (Cemitério de Elefantes, 1964)
[7] OLIVEIRA, Ricardo Costa de. O Silêncio dos Vencedores – genealogia, classe dominante e Estado no Paraná. Curitiba: Moinho de Vento, 2001.
[8] MACEDO, Rafael Greca. CURITIBA – Luz dos Pinhais. 2ed.. Curitiba: Solar do Rosario, 2018.
[9] Ibidem. O silêncio dos Vencedores...
[10] Ibidem. Curitiba revisitada. Ibid... (Dinorá, 1994)
[11] Idem. Uma vela para Dario. Id.. (Cemitério de Elefantes, 1964)
[12] Conhecida como “salsicha” no resto do país.
[13] Idem. Curitiba revisitada. Id.. (Dinorá, 1994)
[14] Idem. O vampiro de Curitiba. 8 ed.. Rio de Janeiro: Record, 1985.
[15] Do latim “putare”: tradução: considerar, julgar. Imperativo afirmativo.
[16] https://www.bandab.com.br/seguranca/47-veiculos-passam-idoso-caido-rua-alto-da-xv-curitiba-nao-param-para-ajudar. Acesso 10/3/2026.
[17] Ibidem. Curitiba Revisitada. Ibid.. (Dinorá, 1994)
[18] Idem. Canção do Exílio. Id.. (Pão e Sangue, 1988)
[19] ORTEGA Y GASSET, Jose. Meditações do Quixote. Campinas: Vide Editorial, 2019.
[20] https://g1.globo.com/pr/parana/noticia/2024/10/01/todo-mundo-passou-como-se-ele-nao-fosse-nada-diz-filho-de-idoso-que-caiu-na-rua-e-morreu-atropelado-em-curitiba.ghtml. Acesso 10/3/2026.
[21] Ibidem. Canção do Exílio. Ibid.. (Pão e Sangue, 1988)
[22] Idem. Lamentações de Curitiba. Id.. (Mistério de Curitiba, 1968)
[23] Idem. Que fim levou o Vampiro de Curitiba?. Id.. (O pássaro de cinco asas, 1974)
[24] Idem. Em busca de Curitiba perdida. Id.. (Mistérios de Curitiba, 1968)


